“O IMPROVÁVEL” e “O CONTRARIADO”.
Regressei a uma filiação
partidária. A um partido político com quem tenho enormes afinidades dogmáticas,
PPD/PSD. Confesso, que fui para a assembleia de voto com algumas indefinições, mas
assumi no apuro do ato, votar no Dr. Marques Mendes. A outra hipótese, seria o
Dr. João Cotrim de Figueiredo.
Tenho pelo Dr. António José
Seguro, respeito cívico e democrático. Um homem que foi um mal-amado no Partido
Socialista. Apunhalado por um estratega sedento de poder – sr. António Costa –
causador de muitas enfermidades com que o sistema democrático vive. (Sem
esquecer um tal, José. O apelido não digo, para não ofender um filósofo que
admiro).
Quando apresentou a sua
candidatura o Dr. António José Seguro, antes de receber qualquer critica de
outras origens, foi humilhado e torturado de críticas pelos camaradas que
assistiram ao seu abandono da vida política e pública, sitiados no Largo do
Rato.
O Dr. António José Seguro, não
reagiu a nada e não comentou coisa nenhuma. Fez-se ao caminho com os seus
amigos e admiradores, e pouco a pouco, viu do Partido Socialista, adventos: os
acordados de vigílias, vindos do nevoeiro, empurrados, tropeçados, mortiços,
espantadiços, melancólicos e os sem vergonha nenhuma na cara. Nada que o
fizesse abandonar o carrinho de choque com que se fez à viagem. Sempre
tranquilo e a cumprir o código da estrada, evitando abalroamentos, despistes ou
colisões em cadeia. Nunca teve a tentação de parar, bisbilhotar, tirar uma
“selfie” e postar-se, postando a paisagem que ia acontecendo. E isso deu-lhe o
direito democrático de subir ao palco nas Caldas da Rainha, para agradecer a confiança
nele depositada. E isso fez dele “O Improvável”. Tornou-se “forçadamente” independente.
A sua sorte.
“O contrariado” é o Dr. André
Ventura. O senhorio do Chega. O político omnipresente das autárquicas. O líder
da oposição. O candidato a Presidente da Républica. O emergente e insurgente
líder de um partido que se instalou na sociedade portuguesa, devido a todos
aqueles que tiveram engulhos de boca a revelar apoio ao vencedor da primeira
volta. E os demais - sobejamente conhecidos - dos partidos do arco da
governabilidade.
A esmagadora maioria do
eleitorado do “grande líder” é gente tão portuguesa quanto eu. Simplesmente
está aborrecida e indignada com a promiscuidade perpetrada por pessoas sem
escrúpulos que usaram e abusaram da delegação de competências que lhe foram
atribuídas pelos cidadãos eleitores e a quem “teimosamente” fomos reiterando
confiança, sem um escrutínio de análise critica. A filiação partidária ou
simpatia pessoal, falou mais alto.
Os partidos do arco da
governabilidade deram primazia ao cartão de militante e polvilharam de gente
impreparada, pilares fundamentais de uma sociedade. Na educação, na saúde e na justiça,
tendo estabelecido uma lógica cooperativista de interesses genealógicos
partidários.
A tríade de um estado social
equitativo e responsável, eclipsou. As políticas demográficas foram e são
desastrosas. A reorganização territorial para mitigar o abandono do espaço
rural e a sua degradação ambiental é uma coutada de experiências vãs e de
negociatas. E perdem-se vidas de uma forma hedionda. E derruímos património de
uma forma absolutamente criminosa. A lei da labareda atribui o seu legado
devastador. E tudo isto acontece pela incúria política e falta de sentido e
autoridade do Estado.
Para completar o ramalhete, o
atual Presidente do Conselho Europeu – um estadista de mão cheia, um visionário
que se amantizou e se fez compadre das amigas e dos amigos que odeiam a União
Europeia para ser poder por cá – escancarou as fronteiras com o beneplácito do
Sr. Presidente República Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e vimos entrar ao libre
arbítrio “todos e todas” sem uma regulação adequada, equitativa, solidária e
humanista. Com êxodos nos antípodas dos nossos valores ancestrais.
E com todas estas enfermidades
por falta de uma boa alimentação política, higienização dos médicos com os
descuidos dos pacientes, surge o deus das mezinhas ambulatórias.
Tem remédio para tudo e nem
precisa de internamentos. O partido é ele com ele. E neste proliferar de
soluções verbais, se os partidos históricos da nossa democracia não ganharem
vergonha, decoro e respeito mútuo entre si, o deus omnipresente, está com alma a
sair das zonas rurais e ascender a meia encosta das cidades, até tomar a torre
de menagem de cada castelo.
O seu discurso de ascensão à 2ª
volta, foi o de um candidato para o ministério de governo não de magistratura
de influências. Em vez de congregar apelou a uma falange, acicatou ânimos,
fomentou a discórdia, pulverizou ódios e tentou criar a imagem de ser o
“soberano” à direita. E isso, nós –
democratas desse espaço e espectro político – não lho devemos consentir. Temos
que saber expurgar todas as nossas responsabilidades pelo caminho até aqui
percorrido, e assomar aonde exageramos na omissão e negligência. Aonde perdemos
a confluência da mensagem da nossa maior referência, Dr. Francisco de Sá
Carneiro.
Por ter o discurso que teve, considero
que estava no palco errado, tornando-se “o contrariado”.
Tudo neste pais se começou a afirmar
e a originar, como quem faz a leitura de um livro. Abre a primeira página,
lê-a… procura o meio do livro, passa os olhos… e vai para a esplanada a lê-lo a
caminhar pelo passeio, faz que tropeça, vitimiza-se, desperta olhares, e
maliciosamente suspira: - “Ups”, ia caindo!
- Mas, quem realmente se
estatelou, fomos nós!
Há que percorrer informação, explorar as narrativas e projetar a história como ela se viveu e foi descrita. Nunca na profanação dos direitos de autor ou através do seu plágio.
Eu não vou ficar indiferente à 2ª
volta. Vou votar no Dr. António José Seguro.
Confesso que não simpatizo com
alguns dos seus amigos. Que tenho a noção que vou encontrar alguns radicais de
esquerda. Que me vou cruzar com jacobinos e outras tribos remanescentes de
apoleirados. Mas não são eles que me
incomodam. A matriz do Partido Socialista é profana de deuses menores. Tem
ascensões e dissensões. E eu embora censure veementemente o período do José, do
Costa e do Nuno e dos seus correligionários, acredito no perfil estatutário dos
seus valores democráticos. Sabendo que temos muita propensão para discordar. Mas
eu necessito desse aditivo antagónico para enaltecer a democracia que amo e
desalmadamente defendo.
Depois o Dr. António José Seguro sobreviveu
ao seus mais veementes detratores e eles estão quase todos dentro do seu próprio
partido. E isso diz-me duas coisas. É um homem com personalidade e imensa resiliência.
E que ao escolher a cidade das Caldas da Rainha é sintomático para todos. Nela,
também nos doou uma mensagem de estar atento e de esperança, que Rafael Bordalo
Pinheiro expressou no “Zé Povinho” como figura de indignação e frustração. E basta-nos
este boneco.
Não podemos pedir alteração de
comportamentos, senão formos exigentes com as nossas escolhas.
A minha filiação, agora, tem como
referência os valores da democracia pluralista nos primados da tolerância, da harmonia
social, do humanismo, da equidade e do respeito pelo espaço de cada um, na
República Portuguesa.